Módulo II – Estudo das Substâncias Psicoativas

Por Jorge Luiz Barbosa da Silva, Msc. Bioquímico e Farmacêutico

Introdução 
“Droga” segundo a definição da Organização Mundial da Saúde (OMS) é qualquer substância não produzida pelo organismo que tem a propriedade de atuar sobre um ou mais de seus sistemas, produzindo alterações em seu funcionamento. 
Uma droga não é por si só boa ou má. Existem substâncias que são usadas com a finalidade de produzir efeitos benéficos, como o tratamento de doenças, e são consideradas drogas medicamentosas ou simplesmente medicamentos. Mas também existem substâncias que provocam malefícios à saúde e por isso os denominamos venenos ou tóxicos. Uma coisa importante, a saber, é que uma mesma substância pode funcionar como medicamento em algumas situações e como tóxico em outras.

Existem drogas que são capazes de alterar o funcionamento cerebral, causando modificações no estado mental, no psiquismo e por isso mesmo são denominadas de drogas psicotrópicas ou substâncias psicoativas.
Há uma lista grande de substâncias presentes em uma espécie de Dicionário onde as Doenças são classificadas (Classificação Internacional de Doenças, 10ª Revisão = CID-10). Em um dos seus capítulos, o de nº V, cujo título é Transtornos Mentais e de Comportamento, lista-se as Doenças e as Drogas a elas relacionadas. Nesta lista incluem-se substâncias como o álcool; substâncias denominadas opióides (relacionadas ao ópio como a morfina, heroína, codeína, diversas substâncias sintéticas); substâncias denominadas canabinóides (relacionadas a maconha); substâncias denominadas como sedativos ou hipnóticos (como é o caso dos barbitúricos e os benzodiazepínicos); substâncias estimulantes como a cocaína e o crack; ou as anfetaminas ou ainda substâncias relacionadas como a cafeína ou a nicotina (tabaco) ou ainda substâncias que provocam alterações como alucinações, caso dos alucinógenos (chá de cogumelo, LSD).

Enfim, vale lembrar que nem todas as substâncias psicoativas têm a capacidade de provocar dependência apesar de todas elas afetarem o Sistema Nervoso Central; entretanto, há substâncias aparentemente inofensivas e presentes em muitos produtos de uso doméstico que têm esse poder.

Classificação das drogas
Há diversas formas de classificar as drogas.

Drogas Lícitas

Drogas Ilícitas

São aquelas comercializadas de forma legal, podendo ou não estar submetidas a algum tipo de restrição. Como por exemplo, álcool (venda proibida a menores de 18 anos) e alguns medicamentos que só podem ser adquiridos por meio de prescrição médica especial (tarja preta).

Proibidas por lei.
Estas não podem ser comercializadas. A restrição aqui não se enquadra em uma faixa etária, mas a todas as faixas etárias e todas as formas de apresentação. Ex: maconha, cocaína, crack.


Existe uma classificação – de interesse didático – que se baseia nas ações aparentes das drogas sobre o Sistema Nervoso Central (SNC), conforme as modificações observáveis na atividade mental ou no comportamento da pessoa que utiliza a substância. São elas: Drogas Depressoras, Estimulantes e Perturbadoras da Atividade Mental. 
 
DROGAS DEPRESSORAS DA ATIVIDADE MENTAL incluem uma grande variedade de substâncias, que diferem muito em suas propriedades físicas e químicas, mas que apresentam a característica comum de causar uma diminuição da atividade global ou de certos sistemas específicos do SNC. Como consequência dessa ação, há uma tendência de ocorrer uma diminuição da atividade motora, da reatividade à dor e da ansiedade, e é comum um efeito de melhoria do bem estar em geral.
 
ALCOOL: O álcool etílico é um produto da fermentação de carboidratos (açúcares) presentes em vegetais, como a cana-de-açúcar, a uva e a cevada. Suas propriedades são conhecidas desde tempos pré-históricos e praticamente, todas as culturas têm ou tiveram alguma experiência com sua utilização. É de longe a droga psicotrópica de maior uso e abuso sendo amplamente disseminada em um grande número de países na atualidade. 
BARBITÚRICOS: Pertencem ao grupo de substâncias sintetizadas artificialmente desde o começo do século XX, que possuem diversas propriedades em comum com o álcool e com outros tranquilizantes (benzodiazepínicos). Seu uso inicial foi dirigido ao tratamento da insônia, porém a dose para causar os efeitos terapêuticos desejáveis não está muito distante da dose tóxica ou letal. 
BENZODIAZEPÍNICOS: Esse grupo de substâncias começou a ser usado na Medicina durante os anos 60 e possui similaridades importantes com os barbitúricos, em termos de ações farmacológicas, com a vantagem de oferecer uma maior margem de segurança, ou seja, a dose tóxica, aquela que produz efeitos prejudiciais à saúde, é muitas vezes maior que a dose terapêutica, ou seja, a dose prescrita no tratamento médico. Atuam potencializando as ações do GABA (ácido gama-amino-butírico), o principal neurotransmissor inibitório do SNC o que leva a diminuição da ansiedade; indução do sono; relaxamento muscular; redução do estado de alerta. 
OPIÓIDES: Grupo que inclui drogas “naturais”, derivadas da papoula do oriente (Papaver somniferum), sintéticas e semi-sintéticas, obtidas a partir de modificações químicas em substâncias naturais. As drogas mais conhecidas desse grupo são a morfina, a heroína e a codeína, além de diversas substâncias totalmente sintetizadas em laboratório, como a metadona e meperidina. 
SOLVENTES E INALANTES: Esse grupo de substâncias, entre os depressores, não possui nenhuma utilização clínica, com exceção do éter etílico e do clorofórmio, que já foram largamente empregados como anestésicos gerais. Solventes podem tanto ser inalados involuntariamente por trabalhadores quanto ser utilizados como drogas de abuso, por exemplo, a cola de sapateiro. Outros exemplos são o tolueno, o xilol, o n-hexano, o acetato de etila, o tricloroetileno, além dos já citados éter e clorofórmio, cuja mistura é chamada, frequentemente, de “lança-perfume”, “cheirinho” ou “loló”.
 
DROGAS ESTIMULANTES DA ATIVIDADE MENTAL: São incluídas nesse grupo as drogas capazes de aumentar a atividade de determinados sistemas neuronais, o que traz como consequências um estado de alerta exagerado, insônia e aceleração dos processos psíquicos.
ANFETAMINAS: São estimulantes do Sistema Nervoso Central (SNC) e muito utilizada por pessoas que desejam fazer regimes para emagrecer ou pessoas que querem ficar acordadas e “ligadas” por mais tempo não respeitando os limites fisiológicos. São substâncias sintéticas, ou seja, produzidas em laboratório. Existem várias substâncias sintéticas que pertencem ao grupo das anfetaminas. São drogas “anfetamínicas”: o fenproporex, o metilfenidato, o manzidol, a metanfetamina e a dietilpropiona. Atuam aumentando a liberação e prolongando o tempo de atuação de neurotransmissores utilizados pelo cérebro, como a dopamina e a noradrenalina o que permite uma maior vigília e estimulação.
COCAÍNA: É uma substância extraída de uma planta originária da América do Sul, popularmente conhecida como coca (Erythroxylon coca). A cocaína pode ser consumida na forma de pó (cloridrato de cocaína), aspirado ou dissolvido em água e injetado na corrente sanguínea, ou sob a forma de uma pedra, que é fumada, o crack. Existe ainda a pasta de coca, um produto menos purificado, que também pode ser fumado, conhecido como merla. A cocaína é um potente estimulador do Sistema Nervoso Central (SNC)
 
DROGAS PERTUBADORAS DA ATIVIDADE MENTAL: Nesse grupo de drogas, classificam-se diversas substâncias cujo efeito principal é provocar alterações no funcionamento cerebral, que resultam em vários fenômenos psíquicos anormais, entre os quais destacamos os delírios e as alucinações. Por esse motivo, essas drogas receberam a denominação de “alucinógenos”. Em linhas gerais, podemos definir alucinação como uma percepção sem objeto, ou seja, a pessoa vê, ouve ou sente algo que realmente não existe. Delírio, por sua vez, pode ser definido como um falso juízo da realidade, ou seja, o indivíduo passa a atribuir significados anormais aos eventos que ocorrem à sua volta. Há uma realidade, um fator qualquer, mas a pessoa delirante não é capaz de fazer avaliações corretas a seu respeito. Por exemplo, no caso do delírio persecutório, nota em toda parte indícios claros – embora irreais – de uma perseguição contra a sua pessoa. Esse tipo de fenômeno ocorre de modo espontâneo em certas doenças mentais, denominadas psicoses, razão pela qual essas drogas também são chamadas psicotomiméticos.
MACONHA: Há na Cannabis sativa (= pé de maconha) muitas substâncias denominadas de canabinóides. Desse vegetal as folhas e inflorescências secas podem ser fumadas ou ingeridas. Há também o haxixe, pasta semi-sólida obtida por meio de grande pressão nas inflorescências, preparação com maiores concentrações de THC (tetrahidrocanabinol), uma das diversas substâncias produzidas pela planta, principal responsável pelos seus efeitos psíquicos. Há uma grande variação na quantidade de THC produzida pela planta conforme as condições de solo, clima e tempo decorrido entre a colheita e o uso, bem como na sensibilidade das pessoas à sua ação, o que explica a capacidade de a maconha produzir efeitos mais ou menos intensos. 
ALUCINÓGENOS: Designação dada a diversas drogas que possuem a propriedade de provocar uma série de distorções do funcionamento normal do cérebro, que trazem como consequência uma variada gama de alterações psíquicas, entre as quais alucinações e delírios, sem que haja uma estimulação ou depressão da atividade cerebral. Fazem parte deste grupo a dietilamida do ácido lisérgico (LSD) e o Ecstasy. Há também diversas plantas com propriedades alucinógenas como, por exemplo, alguns cogumelos (Psylocibe mexicana, que produz a psilocibina), a jurema (Mimosa hostilis) e outras plantas eventualmente utilizadas na forma de chás e beberagens alucinógenas.
DIETILAMADA DO ÁCIDO LISERGICO: LSD Substância alucinógena sintetizada artificialmente e uma das mais potentes com ação psicotrópica que se conhece. As doses de 20 a 50 milionésimos de grama produzem efeitos com duração de 4 a 12 horas. Seus efeitos dependem muito da sensibilidade da pessoa às ações da droga, de seu estado de espírito no momento da utilização e também, do ambiente em que se dá a experiência. 
ECSTASY (3,4-metileno-dioxi-metanfetamina ou MDMA) É uma substância alucinógena que guarda relação química com as anfetaminas e apresenta, também, propriedades estimulantes. Seu uso está associado a certos grupos, como os jovens freqüentadores de danceterias ou boates. Há relatos de casos de morte por hipertermia maligna, em que a participação da droga não é completamente esclarecida. Possivelmente, a droga estimula a hiperatividade e aumenta a sensação de sede ou, talvez, induza um quadro tóxico específico. 
ANTICOLINÉRGICOS: São substâncias provenientes de plantas ou sintetizadas em laboratório que têm a capacidade de bloquear as ações da acetilcolina, um neurotransmissor encontrado no SNC e no Sistema Nervoso Periférico (SNP). Produzem efeitos sobre o psiquismo quando utilizadas em doses relativamente grandes e também provocam alterações de funcionamento em diversos sistemas biológicos, portanto, são drogas pouco específicas. 
 
OUTRAS DROGAS: Você já tem uma idéia de que as drogas podem ter vários tipos de classificação, entretanto, há drogas cujos efeitos psicoativos não possibilitam sua classificação numa única categoria (depressoras,  estimulantes ou perturbadoras da atividade mental).
Todas as drogas descritas a seguir são lícitas, ou seja, são comercializadas de forma legal.
Tabaco: Um dos maiores problemas de saúde pública em diversos países do mundo, o cigarro é uma das mais importantes causas potencialmente evitáveis de doenças e morte. Efeitos:  doenças cardiovasculares (infarto, AVC e morte súbita);  doenças respiratórias (enfisema, asma, bronquite crônica, doença pulmonar obstrutiva crônica);  diversas formas de câncer (pulmão, boca, faringe, laringe, esôfago, estômago, pâncreas, rim, bexiga e útero). Seus efeitos sobre as funções reprodutivas incluem redução da fertilidade, prejuízo do desenvolvimento fetal, aumento de riscos para gravidez ectópica e abortamento espontâneo.
A nicotina é a substância presente no tabaco que provoca a dependência.
Embora esteja implicada nas doenças cardiocirculatórias, não parece ser esta a substância cancerígena.
As ações psíquicas da nicotina são complexas, com uma mistura de efeitos estimulantes e depressores. Mencionam-se o aumento da concentração e da atenção e a redução do apetite e da ansiedade.
A nicotina induz tolerância e se associa a uma síndrome de abstinência com alterações do sono, irritabilidade, diminuição da concentração e ansiedade.
Gravidez extra-uterina, fora do útero. Fumantes passivos – existem evidências de que os não-fumantes expostos à fumaça de cigarro do ambiente (fumantes passivos) têm um risco maior de desenvolver as mesmas patologias que afetam os fumantes.

• Cafeína É estimulante do SNC menos potente que a cocaína e as anfetaminas. O seu potencial de induzir dependência vem sendo bastante discutido nos últimos anos. Surgiu até o termo “cafeinísmo” para designar uma síndrome clínica associada ao consumo importante (agudo ou crônico) de cafeína, caracterizada por ansiedade, alterações psicomotoras, distúrbios
do sono e alterações do humor.

• Esteróides anabolizantes: Embora sejam descritos efeitos euforizantes por alguns usuários dessas substâncias, essa não é, geralmente, a principal razão de sua utilização. Muitos indivíduos que consomem essas drogas são fisioculturistas, atletas de diversas modalidades ou indivíduos que procuram aumentar sua massa muscular. Podem desenvolver um padrão de consumo que se assemelha ao de dependência.
Efeitos adversos
• diversas doenças cardiovasculares;  alterações no fígado, inclusive câncer;  alterações musculoesqueléticas indesejáveis (ruptura de tendões, interrupção precoce do crescimento).
 
Referências
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& Wilkins, 1997.

Referências eletrônicas:
www.aed.one2one.com.br  Álcool e Drogas Sem Distorção. , do Núcleo de Estudos do Álcool & Outras Drogas
NEAD do Hospital Albert Einstein 

Jorge Luiz Barbosa da Silva é professor de Química do Rede Estadual de Ensino de Santa Catarina, professor do Cursinho Pré- Vestibular Só Exatas, de Florianópolis (SC), professor de pós-graduação da Faculdade Luterana de Teologia (FLT – SC), farmacêutico, bioquímico, Presidente do Conselho Municipal sobre Drogas – COMEN  (Florianópolis) e Membro do Fórum Parlamentar sobre Drogas da Câmara Municipal de Florianópolis (SC).