Módulo III – Aspectos Psicossociais da Dependência Química

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Por Prof. Dr. Tadeu Lemos, especialista em Dependência Química

Quando falamos em Dependência Química (DQ) estamos nos referindo a uma doença psiquiátrica de ordem biológica, psicológica e social. Portanto, um transtorno biopsicossocial. Trata-se de uma doença causada por drogas psicotrópicas, drogas lícitas e ilícitas, que afetam nosso cérebro e consequentemente nosso comportamento.

A DQ pode ser compreendida como a autoadministração de drogas independentemente do conhecimento sobre seus prejuízos (efeitos adversos, repercussões sociais) e, posteriormente, do desejo de se manter abstinente. Duas características são comuns aos dependentes químicos: 
(1) A compulsão pelo uso da droga, levando ao consumo excessivo e descontrolado. O indivíduo centra suas atividades diárias na busca e consumo da droga, com importantes prejuízos individuais, sociais, familiares, escolares e laborativos. 
(2) O aparecimento de um conjunto de sinais e sintomas físicos e psicológicos quando da interrupção do uso continuado (síndrome de abstinência).
 
Relacionar os avanços científicos neurobiológicos ao conjunto de saberes psicológicos e sociais que acompanham o entendimento do comportamento humano é um desafio de todos nós que lidamos com este problema. Esta integração de saberes é imprescindível para o entendimento, prevenção, diagnóstico e tratamento da DQ.  Em outras palavras, embora a descrição clínica da DQ seja o primeiro passo para seu diagnóstico (um ato médico), a determinação da natureza dos processos biopsicossociais subjacentes à origem, manutenção e reinstalação desta condição, associado ao conhecimento das ações e efeitos das diferentes drogas psicotrópicas (estudadas no capítulo anterior) é que vão garantir a eficácia do tratamento e das abordagens preventivas.

Vocês já leram no primeiro capítulo desta série que há indícios do uso de drogas psicotrópicas pelo homem há mais de dez mil anos antes de Cristo (período neolítico), provavelmente como uma forma de vivenciar experiências místicas ou curar seus males. Por muitos séculos as drogas mais usadas pelo homem foram o ópio, a maconha e o álcool, sempre associadas a suas possíveis propriedades terapêuticas ou em rituais místicos, como uma forma de aproximação com os deuses. Porém, com o passar dos anos, o uso adquire também um caráter recreativo e abusivo e o homem passou a produzir drogas psicotrópicas sintéticas buscando efeitos específicos, não terapêuticos.

Podemos, então, observar claramente que com o desenvolvimento das civilizações, especialmente nas eras moderna e contemporânea, o uso de drogas psicotrópicas perde definitivamente seu caráter terapêutico e místico e consolida-se o uso recreativo, com padrão abusivo e crescente de dependência.

O que mudou? Mudou a relação do homem com a droga. Mudou a finalidade do consumo, do uso. Por que? Porque com o processo de desenvolvimento o homem passou a ter outras necessidades, outros anseios, não preenchidos pela saúde e pela espiritualidade; porque o ambiente em que vive foi de tal forma modificado na busca de facilitações para a vida, que trouxe, no bojo dos benefícios, há também muitos riscos; porque o homem vem perdendo a capacidade de manejar sua própria vida, de enfrentar os riscos próprios da sobrevivência, de lidar adequadamente com suas emoções. 

Neste sentido de mudança, evoluíram também as teorias que buscam explicar a gênese da DQ. No século XVIII predominava a Teoria Moral, que preconizava ser o abuso de álcool uma escolha pessoal que transgredia as regras da boa convivência social e que por isso deveria ser punida com castigos. Na virada daquele século surgiu o Modelo da Temperança, que compreendia a embriaguez como a perda do autocontrole, que começava por escolha pessoal, tornava-se um hábito e depois uma necessidade. Por isso se deveria ser mais complacente com os abusadores. No século XIX surge o Modelo Clínico do alcoolismo, como uma doença crônica, que preconizava tratamentos clínicos prolongados.
Na década de 20 do século passado, a Lei Seca americana acirrou as discussões entre moralistas e cientistas. Daí vem o Modelo Natural, pregando que o ser humano tinha uma tendência inata ao uso de drogas e, em seguida, os Modelos Biológicos (amparados em teorias neurobiológicas e genéticas), os Modelos Psicológicos (teorias psicanalíticas, da personalidade dependente, comportamental, cognitiva e sistêmica), os Modelos Sociais (teorias de processo social e de controle social) e os Modelos Espirituais (Alcoólicos Anônimos e Narcóticos Anônimos).

Mais recentemente surgiu o Modelo da Saúde Pública, considerando a DQ como resultado de interações entre o indivíduo (biológico, psicológico e espiritual), o ambiente (social) e a droga, e o Modelo do Ecletismo, mais aceito atualmente, que considera todos os modelos citados a partir do Biológico, assimilando uma combinação de abordagens embasadas em conhecimento científico.

Na abordagem eclética da DQ, nos deparamos com fatores de risco e proteção ao uso, abuso e dependência de drogas. São considerados fatores de risco todas as circunstâncias sociais ou características da pessoa que a tornam mais vulnerável a assumir comportamentos de risco, como usar drogas. Por outro lado, fatores de proteção são aquelas circunstâncias que contrabalançam ou compensam as vulnerabilidades, tornando a pessoa com menos chances de assumir esses comportamentos arriscados. Assim, os fatores de risco e de proteção englobam aspectos biológicos, genéticos, de relacionamento e interação social, aspectos familiares, culturais, o acesso as drogas e os efeitos dessas sobre o indivíduo.
 
Como localizar esses fatores? Estes fatores são encontrados no indivíduo, na família, na escola, na comunidade, e na própria droga. Vejam o quadro abaixo:


Fatores de risco e proteção ao uso, abuso e dependência de drogas, encontrados no indivíduo, na família, na escola, na comunidade e na droga.

 

FATORES DE RISCO

FATORES DE PROTEÇÃO

 

INDIVÍDUO

- Insegurança
- Insatisfação
- Curiosidade
- Busca de emoções/prazer
- Doenças psiquiátricas (depressão, ansiedade, pânico, esquizofrenia, outras)
- Doenças crônicas em geral

- Habilidades sociais
- Cooperação
- Capacidade resolutiva
- Vínculos pessoais
- Vínculos institucionais
- Ética e valores morais
- Autonomia
- Autoestima
- Saúde

 

FAMÍLIA

- Autoritarismo

  1. - Permissividade ou negligência
  2. - Pais ou irmãos que fumam, bebem ou usam outras drogas
  3. - Pais ou irmãos que sofrem de transtornos mentais ou doenças crônicas
  4. - Conflito entre os pais ou irmãos

 - Definição de papéis
- Hierarquia
- Companheirismo
- Envolvimento afetivo
- Monitoramento das ações dos filhos
- Regras de conduta claras
- Respeito aos ritos familiares
- Harmonia conjugal

 

ESCOLA

- Mau desempenho
- Falta de regras claras
- Baixa expectativa em relação aos alunos
- Exclusão social
- Falta de vínculos afetivos
- Autoritarismo
- Permissividade
- Falta de infraestrutura
- “Escola Clube” *

- Bom desempenho
- Boa adaptação
- Oportunidades de participação
- Desafios
- Vínculo afetivo
- Exploração de talentos pessoais
- Descoberta e construção de
um projeto de vida
- Prazer em aprender
- Realização pessoal

 

COMUNIDADE

- Violência
- Desvalorização do poder público
- Descrença nas instituições
- Falta de recursos para prevenção e tratamento
- Desemprego
- Falta de lazer
- Modismos
- Falta de informação
- Uso indiscriminado de remédios

- Respeito às leis sociais
- Credibilidade da mídia
- Trabalho
- Lazer
- Justiça social
- Informação sobre drogas
- Organização comunitária
- Afetividade comunitária
- Mobilização social
- Boas relações interpessoais

 

DROGA

- Disponibilidade para compra
- Fácil acesso
- Propaganda
- Efeito agradável/prazer, que leva o indivíduo a querer repetir o uso

- Informações adequadas
- Regras e controle para consumo
- Dificuldade de acesso

* “Escola Clube” é a escola mais voltada para o lazer do que para o ensino.


O conceito atual de DQ considera que qualquer padrão de consumo é constantemente influenciado por estes fatores de risco e de proteção. Assim, a caracterizamos como um problema multifatorial que deve ser abordada em todos os campos onde encontramos estes fatores. Esta deve ser uma abordagem multiprofissional, na qual é importantíssima a participação dos educadores, que podem estar atentos aos fatores psicossociais aqui listados. 

Como já foi abordado no módulo I, sabemos que, geralmente, o uso de drogas ilícitas se inicia na adolescência e o de drogas lícitas (álcool e tabaco) se inicia ainda mais cedo. Por isso, a prevenção deve ocorrer o mais precocemente possível. Nas escolas, a abordagem preventiva não requer necessariamente uma discussão sobre os diferentes tipos de drogas, mas certamente requer uma atenção especial aos valores éticos e aos aspectos de uma vida saudável, sem prescindir, obviamente, de um ensino de qualidade.

Finalizo com uma reflexão da psicolinguista argentina Emília Ferreiro  (Psicogênese da Língua, Artes Médicas, 1985): “As crianças pobres não aprendem, não porque sejam pobres, carentes e desnutridas (e outras denominações correlatas), mas porque não são devidamente estimuladas; o que temos hoje é uma escola pobre de estímulos, de condições materiais, sucateada, maltratada e que maltrata e expulsa seus alunos”. Eu completo: as crianças não se drogam porque são pobres, mas...

Tadeu Lemos é médico especialista em dependência química, mestre e doutor em Neurociência pela UNIFESP. Especialista em Ativação de Processos de Mudança no Ensino de Saúde, pela Fiocruz. Professor de Psicofarmacologia do Departamento de Farmacologia e Médico do Núcleo de Psiquiatria do Hospital Universitário da UFSC. Preceptor da Residência de Psiquiatria do Instituto de Psiquiatria da SES/SC.