Módulo V - Processo de intervenção em dependência química
Por Maria Taís de Melo, PhD. E Liliana Stadnik, Msc.
O ser humano é produto de sua atividade histórica em seu meio social que, em interação com “os outros”, realiza, transforma e muda o curso de sua história.
É de extrema relevância ter em mente que o homem se constitui por inteiro, ele é um ser biopsicossocial, não mero fragmento a ser visto e analisado, conforme sua posição no mundo.
Nessa concepção de homem e de mundo, podemos vislumbrar as possibilidades em todas as ações humanas, e é assim que pretendemos intervir, possibilitando a reflexão que desencadeie em ações efetivas na qualidade de vida de nossas crianças e jovens, prevenindo-os e encaminhando-os para uma vida saudável longe das drogas e de todos seus malefícios, instigando-os a consciência quanto ao uso e suas consequências, muitas vezes fatais e irreversíveis. Quanto à prevenção ao uso de drogas, a responsabilidade vai além da família, deve ser pensada com compromisso na educação formal, aquela que se desenvolve dentro das nossas instituições, a qual chamamos de escola.
A Família e a escola
Sabemos que a primeira instituição social a educar é a família e seu papel importante é fundamental e intransferível, um espaço/tempo que caracteriza o meio histórico e social de cada sujeito. Entretanto, sabemos também que somente esta instituição, por si só, não pode dar conta do processo educacional, uma vez que as crianças têm ido muito cedo para a outra instituição que é a escola, e aí o papel indissociável das duas: de importante responsabilidade não tendo espaços para jogos de transferência.
Neste mesmo espaço social, as drogas também estão e esperam a oportunidade de chegar às nossas crianças e adolescentes. O engano aqui é pensar que elas estão longe, e, assim pensando, que devem ser discutidas mais tarde e este discurso do "mais tarde" tem inviabilizado a possibilidade de prevenção, fazendo-nos chegar muito tarde... Temos observado que é nesta espera de tempo que elas têm encontrado espaço junto às nossas crianças e adolescentes.
Se pensarmos um pouco, nós educadores estamos diretamente nas escolas, identificamos muito bem esta situação, não apenas percebemos como somos comunicados que o “Joãozinho/ a Joaninha” já estão o suficientemente envolvidos, e que somente o tratamento específico pode ajudar essas vítimas. E é assim que perguntamos: por que não percebemos? Surgem perguntas como estas e com elas algumas respostas. Nosso olhar pode estar fixo apenas em cumprir os conteúdos programáticos. Nesse momento, torna-se imprescindível a reflexão sobre o que realmente é "educar"? Qual nosso real papel de educador? Sem dúvida ele vai muito além dos conteúdos programáticos que, devemos sim, levar aos nossos alunos. Devemos lembrar, também, que em nossas filosofias consta ensinar, educar e preparar para a vida e neste sentido, o que estamos fazendo?
Neste curso do qual você faz parte, é nosso papel o de chamar todos os educadores a pensar nesta possibilidade de educar e verdadeiramente exercer nossa profissão em plenitude com a qualidade de vida.
Como nosso sujeito histórico é total, ele não entra na escola apenas com um cognitivo a ser trabalhado, assim o aspecto emocional deve também ser considerado. Pois a emoção também ocupa um lugar de destaque nos processos de constituição singular destes sujeitos (alunos), sendo que a apropriação da realidade, do cotidiano é posteriormente ressignificada e produzida socialmente, por isso, a importância do que se dá e do que se recebe nas mediações e no contexto escolar.
É preciso também entender esta questão da emoção, da afetividade, pois observa-se que nas escolas esta questão encontra-se ainda em um discurso com olhar pejorativo, como se fosse uma permissividade total, ou com olhar de “coitadinho” e não é nada disso. A afetividade está em abrir e estender o olhar, para dialogar, ensinar, aprender e viver com um ensino de qualidade e a autoridade necessária que inclui, não o autoritarismo que exclui e abre caminho para o mundo enganoso das drogas.
A emoção e a afetividade são condições essenciais e estão na constituição do humano, assim nos move e nos leva ao melhor caminho, este a ser escolhido em cada situação que nos é colocada à frente. E esta situação nos aponta a importância do professor mediador no processo educacional, que suscita a atenção para as leituras não verbais presentes em sala de aula, como as expressões, gestos, comportamentos, podem significar muito mais que as palavras, como nos diz Freire (1999, p.47):
Às vezes mal se imagina o que pode passar a representar na vida de um aluno um simples gesto do professor. O que pode um gesto aparentemente insignificante valer a força formadora ou como contribuição do educando por si mesmo[...]Este saber, o da importância desses gestos que se multiplicam diariamente nas tramas do espaço escolar, é algo sobre que teríamos de refletir seriamente.
E falando de emoções, afetos, lembramos do papel importante da cultura e da linguagem, pois em cada meio social, as palavras, os gestos são dotados de significados simbólicos que estabelecem uma relação dinâmica entre o sujeito e a cultura. Nesse sentido, precisamos pensar que ideologia e cultura são processos dialéticos que ao serem internalizados, interferem na dinâmica do desenvolvimento das funções mentais superiores (pensamento, memória, imaginação, etc.). Sendo assim, quando nos propomos a discutir aspectos relacionados à prevenção do uso de drogas entre crianças e adolescentes, não podemos perder de vista a perspectiva dialética destas dimensões. Assim, temos que começar pela reflexão da forma como pode ser internalizada o próprio conceito de prevenção.
Neste caminho que busca desvendar significados o diálogo tem um papel fundamental e a leitura dos gestos também dispensa as palavras e faz uma comunicação não verbal de relevante importância, portanto deveríamos nos dedicar e nos aprofundar mais nestas leituras.
Cada ato da fala não é só o produto dado, sempre cria algo que nunca existiu antes, algo absolutamente novo e não repetitivo que se revela na entonação. Ao destacarmos as próprias conversas cotidianas que ocorrem entre as crianças é possível compreender como a entonação é especialmente sensível a todas as vibrações sociais e afetivas que envolvem o falante, principalmente observar como ela atua constituindo e se integrando ao enunciado como parte essencial da estrutura de sua significação.
Cada época e cada grupo social têm seu próprio repertório de formas de discurso que funciona como espelho que reflete e retrata o cotidiano. A palavra é a revelação de um espaço no qual os valores fundamentais de uma dada sociedade se exprimem e se confrontam.
Nós concebemos que todos os fenômenos educativos têm certo grau de distanciamento, seja espacial, temporal ou ambos, pois mesmo as aulas, os cursos, currículos ditos presenciais, estão sujeitos a estes aspectos. O currículo não se esgota nas dimensões físicas da sala de aula ou da presença do professor. Outros instrumentos de aprendizagem perpassam neste cenário: pesquisas, internet, leituras, entrevistas, filmes, diálogos síncronos e assíncronos, etc.
Na prática pedagógica o diálogo pode se constituir em ferramenta imprescindível para detectar e vislumbrar alternativas, que precedida de uma escuta qualificada pode constituir um referencial que norteie nosso olhar para a dimensão complexa da constituição social do sujeito e consequentemente nos ofereça um arsenal metodológico de intervenção, o que é fundamental para que possamos agir criticamente na arena complexa da educação.
Portanto, pensar em prevenção ao uso de drogas, nos remete à família e à escola e, neste espaço, nos dirigimos especialmente à escola, aos seus profissionais e especialmente ao professor educador, onde o mundo das possibilidades é fértil.
Para o trabalho que propomos quanto à prevenção ao uso de drogas e apostando mais uma vez que a educação pode assumir esta causa, pensamos na escola como um espaço humanizado onde o processo de aprendizagem e ensino seja um espaço de construção que vise atender as propostas delineadas nos Projetos Políticos Pedagógicos, suas filosofias de formar um cidadão consciente, capaz, digno para viver e conviver em sociedade. Para isso é importante que as relações que se estabelecem neste contexto sejam de compromisso acadêmico e com a vida, o que exige uma relação afetuosa, conforme Freire (1999, p. 159)
Ensinar exige querer bem aos educandos; ao querer bem não significa na verdade que por ser professor me obrigo a querer bem a todos os alunos de maneira igual. Significa de fato que a afetividade não me assusta, que não tenho medo de expressá-la. Significa esta abertura ao querer bem a maneira que tenho de autenticamente selar o meu compromisso com os educandos numa prática específica do ser humano.
Neste contexto, localizamos a terra fértil, para efetivarmos ações que entre a realidade descortinada e conhecida de cada um de nós educadores, por vezes cruel bem sabemos, o ideal que sonhamos, mas é “entre” a realidade e o ideal, que podemos vislumbrar nosso fazer, que é no mundo das possibilidades, de incluir a PREVENÇÃO AO USO DE DROGAS no cotidiano de nossas escolas, de nossas aulas, pois nossa possibilidade está em chegarmos às nossas crianças e jovens antes das drogas.
Podemos chegar antes se entendermos que este assunto não está longe como muitos pensam. Ele é real e perigoso, devemos estar atentos e abertos para identificar, modificar algumas posturas muitas vezes assumidas pela escola. E nesse sentido relatamos um fato ocorrido há poucos meses e que graças a uma atitude diferenciada pode-se obter um bom resultado.
Em uma determinada escola, uma menina do 1 ano do Ensino Médio é encaminhada ao profissional (coordenação) com a queixa de que esta não gostava de ir para a aula de Educação Física e tampouco, de estar dentro da sala de aula, sendo frequente suas saídas para o pátio, se escondendo até mesmo no banheiro, o que já teria sido chamado sua atenção por várias vezes. Neste caso, a medida comum da escola seria em dar uma advertência, fazer um discurso daqueles que não resolvem nada e mandar um bilhete para casa para que os pais estivessem cientes a respeito da indisciplina da filha. Mas neste dia, quem atendeu a menina, foi outro profissional, que, diga-se de passagem, nunca comungou desta rotina e destes encaminhamentos, e o que fez? Escutou... escutou... e descobriu que esta menina já estava viciada em álcool há muito tempo, a escuta possibilitou espaços para que esta menina pudesse se abrir e pedir socorro, e isso só ocorreu porque a escuta foi qualificada, isto é, houve acolhimento na abertura, estabeleceu-se vínculo de confiança. Dessa forma, unindo âmbito escolar, familiar e seus envolvidos foi possível os encaminhamentos adequados. Agora perguntamos: e se o atendimento rotineiro fosse feito, onde estaria esta menina? E quantos passam diariamente em nossas mãos e são tratados apenas como mais um caso de indisciplina e/ou afrontamento na escola?
Possibilidades de intervenção à Prevenção ao Uso de Drogas
Verifica-se que uma estratégia para proporcionar condições para a objetivação e subjetivação dos sujeitos em Programas de Prevenção ao uso de Drogas é escutar a voz do cursista e seguir o seu olhar. A educação hoje se apresenta como uma proposta mais complexa e diferente do que no passado e uma das formas de se iniciar esse processo de mudança nas políticas de gestão é ouvir o ponto de vista dos alunos sobre elas. Trazer a voz do aluno deverá ser a principal meta dos modelos de educação que estão se alicerçando hoje.
Portanto, neste artigo sugerimos a metodologia, cuja hipótese central é o diálogo e a análise do conteúdo das falas, a percepção do outro, nas mais diversas linguagens e espaços sociais bem como a atenção a outros indicadores presentes no cotidiano escolar.
Desta forma, sugerimos que haja momentos nas instituições escolares voltados à reflexão para uma educação emocional. Relato de experiências já que falamos de seres humanos e com eles uma história, um universo. É importante os professores saberem sobre seus alunos, que bagagem eles carregam. Afinal, quantas crianças, jovens e até mesmo adultos não tiveram a chance de mostrar quem realmente são, que não tiveram oportunidade e nem receptividade? Será mais fácil rotular e seguir admitindo os famosos comentários: "Ah! O fulano é assim mesmo! Esse garoto não tem mais jeito!" Ou podemos nos permitir escutar o pedido de socorro desse aluno, que muitas vezes está apenas esperando uma chance?
Primeiramente precisamos nos apropriar deste assunto com o compromisso e responsabilidade que o mesmo requer;
Ação de mobilização dos alunos (familiares) e professores (escola) pode-se iniciar pelo Projeto Político Pedagógico da escola;
Refletir a concepção de educação e rever posturas na escola;
Não planejar PREVENÇÃO AO USO DE DROGAS como evento. O objetivo é possibilitar um espaço para que aflore o processo de conscientização, construção para que possa ser apropriado (apreendido) e significado;
Discutir e delinear ações efetivas para o dia a dia sobre a prevenção ao uso de drogas. Para tanto:
-Escuta qualificada;
-Atenção ao outro;
-Acolhimento;
-Conhecimento;
-Adotar estratégias midiáticas, destacando-se a importância da utilização da produção de vídeo como informação alternativa pois, ele permite chegar à realidade mais próxima do aluno. Através do vídeo o aluno pode ter acesso, por exemplo, aos movimentos históricos de seu próprio povoado, cidade ou algumas cidades vizinhas;
- Uso da internet, mediado e acompanhado;
-Produção textual;
-Material escrito (informativo) sobre o assunto construído pelos professores e escola;
-Palestras para professores, escola e, posteriormente, utilizar com alunos;
- Proporcionar para que os alunos produzam o material referente ao assunto, observando sua percepção;
-Analisar antes de julgar cada caso e cada um dos nossos alunos, crianças e adolescentes, pois a forma de abordagem quanto às cobranças dos insucessos e a baixa autoestima terá grande chance, de na exclusão, encontrar o “outro”caminho: o das drogas...
Finalizando, lembramos que escola e professor devem estar abertos, de forma receptiva, a acolher com ética os sujeitos. Somos peças indispensáveis nesse processo e devemos dedicar nosso potencial e chegar aos nossos alunos antes das drogas e assim, seremos capazes de alimentar sonhos ao invés de sufocá-los com a ilusão danosa da droga.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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LEONTIEV, A. O desenvolvimento do psiquismo. Lisboa: Horizonte Universitário,1978.
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Liliana Stadnik é pedagoga com habilitação em Educação Infantil e Anos Iniciais, habilitação nos Fundamentos da Educação, Supervisão e Administração Escolar. Especialização Lato sensu em Didática e Metodologia do Ensino e Mestrado em Psicopedagogia. Membro Títular da ABPp/SC. Supervisora Escolar e Professora Universitária com atuação na Graduação e Pós-graduação (Educação e Psicopedagogia) em diversas instituições.
Maria Taís de Melo é Ph.D. em Engenharia e Gestão do Conhecimento (EGC/UFSC), Dra. em Mídia e Conhecimento e Mestre em Psicologia (UFSC), Graduada em Psicologia e Serviço Social. Consultora Educacional. E-mail:
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