Educação para a infância

Acolhimento na Educação Infantil Por Emilia Cipriano e Claudio Castro Sanches

“Tu és eternamente responsável por aquilo que cativas.”
Antoine de Saint-Exupéry

Início de ano, transcorrer das férias, transferência de grupo e de período, mudança de espaço e de educador, momentos em que está presente sempre o novo. Um caminho que inicia e reinicia com diferentes olhares, sabores, significados e tempos/momentos de acolher e de aconchegar.

O acolhimento tem que ser permanente durante todo o processo de vida na escola. O desafio do educador é construir vínculos especiais com cada criança.

O acolher é inclusão no sentido mais profundo de respeito ao outro que chega, trazendo muitas vezes insegurança, desafios, necessidades de romper provisoriamente laços, jeito de ser e de viver. É confortável chegar e perceber-se acolhido, receber gestos de simpatia, de carinho, de envolvimento, de compreensão e de aceitação.

O olhar do Educador para esse período é fundamental no que se refere à sensibilidade de estar atento às crianças, como um exercício de descoberta de quem são aquelas crianças, suas histórias de vida e de família.

Quando somos bem acolhidos, sentimo-nos confortáveis e esperançosos de que estar naquele espaço pode ser bom e possível de ser feliz.

Esses sentimentos não são próprios de adultos, pertencem também ao bebê/ criança/jovem que tem na acolhida a sensação de porto seguro.

O ciclo da vida (recém-nascido/criança/adolescente/jovem/adulto/melhor idade) é uma espiral evolutiva e nela está presente o processo de adaptação. Quando nos rituais de passagem há a parceria do outro de forma carinhosa e colaborativa, realizamos as travessias com segurança.

Desde o momento em que o bebê chega ao berçário até o fim da escolaridade, o acolhimento tem que estar presente: no ato de receber, no choro, na alimentação, na troca de fraldas, na higienização, no banho, no ato de sentar, no engatinhar, na aquisição do equilíbrio, no andar, no correr, no saltar, no contato com objetos, no uso dos materiais educativos, nas vivências, na sociabilidade, em todos os momentos de desenvolvimento e de aprendizagem.

O projeto acolhimento deve perpassar a vida na escola de ponta a ponta, ser refletido e praticado por todos que integram o universo escolar e ser socializado com as famílias. Na especificidade da Educação Infantil, para receber os bebês e as crianças pequenas, tem que ser elaborado um planejamento pleno de afeto, emoções e compreensão, porque, junto com as crianças, vem o choro, o medo, o rompimento com a família e a habitação, as inseguranças e o sentimento de abandono da mão que a leva à escola e ao desconhecido.

As pessoas, desde que nascem, são sentimentos, emoções, apegos e individualidade. Na criança, ao entrar na escola, estes aspectos, próprios do humano, tendem a um desequilíbrio e podem gerar estresse na criança e no adulto que tem que lidar com esse contexto. No caso do adulto, porque tem a responsabilidade de ajudar a criança a sentir-se bem.

Há pensamentos aos quais, cedo ou tarde, a criança se adapta. Esse comportamento nos pequenos é natural e para alguns pode levar até seis meses. Essas e outras formas de olhar os conflitos da criança em novos espaços precisam ser repensados. Estudos na área da psicologia e da psicanálise nos mostram que atravessar esses momentos de forma dolorosa pode marcar para sempre a relação criança/escola, criança/ adulto, criança/ aprendizagem, assim como desenvolver sentimentos de insegurança, de confiabilidade e de afeto. Uma ação de acolhida, pautada nas descobertas dos porquês da criança não adaptada de forma esperada, pode redirecionar posturas, caminhos e estratégias de acolhimento para determinadas crianças que necessitam de tempos maiores, assim como, tratamentos diferenciados.

Um acolhimento de qualidade poderá significar vínculos favoráveis ao bebê, à criança e ao jovem em relação à escola, além de tranquilidade para realizar as travessias entre o que se sabe e o que se tem que aprender, acreditar que as pessoas são parceiras nos momentos difíceis, ter respeito ao próximo e construir a intencionalidade da solidariedade para com o outro.

Nos artigos anteriores, abordamos as pedagogias do olhar, da escuta, do afeto e da parceria; pedagogias que devem fundamentar o ser educador para construir o projeto de acolhimento.

O projeto sobre o acolhimento precisa ser contemplado pelos saberes: chupeta: sentido e significado; paninho: cheiro e sabores; brinquedo/objetos: afetos e posses; pessoas/lugares: pertencimento e segurança; olhares, tom de voz e toque: tranquilidade e confiança. Esses saberes podem ser traduzidos pela ideia de que, a partir de um jeito de ser individualmente, podemos aproximar a criança a um jeito de ser coletivo, assim como o que me pertence e me identifica não são excluídos no novo espaço em que estou sendo incluído.

Uma história que vivenciamos: Em um determinado berçário de uma creche municipal, os bebês estavam todos confortavelmente acolhidos em uma sala destinada a eles, onde o processo de acolhimento e de adaptação tinha sido realizado com muita competência por parte dos educadores em parceria com as famílias. Tudo transcorria dentro da tranquilidade que os pequenos necessitavam. Tempos depois, a direção reformou outra sala, equipando com espaço de banho, móveis, berços, brinquedos, espelhos, cortinas, som e tudo que acreditava ser próximo do ideal para uma sala de berçário. Quando os bebês foram transferidos, aconteceu uma choradeira total, foi um dia de corre-corre envolvendo todos para acalmá-los. No dia seguinte, quando as crianças iam entrando na nova sala, o choro retornou. Alguém fez a proposta de os levarem para a antiga sala. As crianças se acalmaram e tudo voltou ao normal. O episódio ficou conhecido dentro da creche como o protesto dos bebês.

Qual a conclusão que podemos tirar? Ao apresentarmos o novo, transferências, mudanças, separações sempre temos que ter como primeira ação o ato do acolhimento.

A partir das reflexões deste texto sugerimos que os educadores da infância reflitam sobre:

Os educadores e as crianças estão em constantes reinícios de caminho, a cada início de ano. É necessário que o educador contemple sempre no seu projeto o planejar para o acolhimento?

Para cada grupo de criança, o educador deverá sempre exercitar a experiência com diferentes olhares, sabores, significados. O jeito de fazer necessita ser diferente para cada turma?

Nos grupos de crianças, sempre existem algumas que pela primeira vez estabelecem contato com diferentes pessoas. É necessário tratar os diferentes de forma diferente?

O Educador tem que construir vínculos especiais para cada criança e família. É possível ter vínculos diferenciados para cada criança e família?

O objetivo é o mesmo para contextos inesperados, mas a forma de agir nem sempre deve ser a mesma, assim o educador deve aprender a cada momento um novo jeito de ser, diferente de tudo que já viveu anteriormente. Você concorda com essa afirmação?

O olhar do Educador para este período é fundamental no que se refere à sensibilidade de estar atento às crianças como um exercício de descoberta de quem são aquelas crianças e suas famílias. Você pratica as pedagogias do olhar, do escutar, do afetar de forma diferenciada para cada criança?

Acolher as nossas crianças é mais amplo que adaptá-las ao novo espaço. Cada criança traz junto a sua cultura, os valores, as histórias de seu contexto de vida. Há diferença entre acolher e adaptar? Para um momento de tantos desafios, de tratamento das necessidades das crianças, das famílias e do educador, planejar é imprescindível. Planejar o todo e as partes de um processo educativo são práticas inerentes ao seu papel de educador?

Oportunizar confiança, segurança, acolhimento em um ambiente que estimule as interações, as relações, derrubando preconceitos estabelecidos e constituindo uma parceria efetiva com a família, também é responsabilidade da escola. A ação educativa precisa estar articulada com as necessidades de romper preconceitos?

Ao chegar à escola, as mãos que trazem as crianças são as mesmas que sentem ansiedade, nervosismo, desconhecimento e tensões, que precisam ser identificadas, ouvidas, para se estabelecer uma relação dialógica, transparente e colaborar no processo de adaptação. Acredita que conhecer os conflitos da família em relação à segurança que deve ter na escola ao entregar o filho, facilita o processo de adaptação da criança?

A reflexão sobre algumas manifestações das crianças e de suas famílias merece ser foco de investigação e descoberta. Quando a família traz para a escola seus desconfortos ou suas alegrias estas são partilhadas com o todo da escola?

O choro das crianças durante muito tempo traz o estresse, provoca a ansiedade e o desejo que rapidamente a adaptação ocorra. Você concorda que a adaptação só se efetivará quando a criança perceber o espaço e as pessoas como parte de si?

A acolhida significa construir caminhos para o ritual de passagem, separação casa/escola, a ênfase é a preocupação com os sentimentos, as emoções, a individualidade, a construção da identidade e o processo de socialização. É possível contemplar essas necessidades em um planejamento para a acolhida?

Acolher, aconchegar, procurar o bem estar, o conforto físico, emocional e amparar a criança em suas novas experiências ampliam significativamente o papel e a responsabilidade do educador. Essa afirmação é pertinente? Por quê?

O acolhimento necessita de diferentes compreensões para se dar plenamente: que as famílias compartilhem com a educação; que as crianças se envolvam com os novos espaços; que a criança se torne conhecida pelo educador; que a criança se envolva com outras crianças; que a instituição, a gestão, os educadores organizem o espaço físico, os tempos de forma flexível, para construir uma rotina a ser dominada pela criança. Você já refletiu sobre a importância das diferentes compreensões do acolhimento, para o bom convívio do educador e da criança durante todo o decorrer do ano?

O acolhimento presente no dia a dia, perpassando diversos momentos do cotidiano. O acolhimento perpassa os diferentes momentos do cotidiano?

Não há padrão a ser estabelecido. Para as diferentes manifestações, choros, agressões, entristecimentos, quietudes, estereótipos, é preciso redescobrir novos padrões. O educador tem que ser um eterno aprendiz para descobrir novas referências e conhecimentos?

Ler atentamente algumas atitudes além do choro, dificuldade de ir à escola, de separar-se da mãe ou da pessoa que traz a criança, rejeição de ser cuidada por outra pessoa, rejeição da alimentação, das atividades propostas, recusa, separar-se de seus colegas de apego, apático ou agitado, bater ou agredir outras crianças sem motivo aparente, machucar-se continuamente, ficar doente ou desenvolver doenças crônicas ligadas ao intestino a ao aparelho respiratório. Você certamente já vivenciou esses contextos. Perguntamos: o que aprendeu e o que ensinou a partir das suas descobertas e construções?

Flexibilizando a rotina para: incorporar os objetos de apego; para mudança de espaços; para marcas individuais; para ansiedades, para acolher sentimentos; acolher a família; atividades diversificadas; trabalhos com múltiplas linguagens; e ações que serão criadas pelo educador a partir dos momentos de necessidades. A rotina pensada, planejada e construída por você permite flexibilidade para os imprevistos?

Essas questões e outras devem ser refletidas por todos nós educadores em todas as nossas ações, sabendo que ser bem acolhido é espaço para sentimentos de gratidão.

A frase de Antoine de Saint-Exupéry, “Tu és eternamente responsável por aquilo que cativas”, é validada como verdadeira pelos educadores que praticam com intencionalidade o acolhimento, porque constantemente saberão, através do olhar do bebê, dos gestos e dos afetos das crianças expressões de carinho e gratidão por quem os cativou.

Emilia Cipriano é Doutora em Educação, Mestre em Psicologia da Educação e Pesquisadora da Infância.

Claudio Castro Sanches é Mestre em Educação, Especialista em Gestão Educacional e Pesquisador da Infância. www.aprenderaser.com.br

 

Matéria publicada na Revista Direcional Educador - Edição 84 - janeiro/2012